|
Ritmos da História
Caro leitor, você sabia que a 5ª Sinfonia de Beethoven, com partes tensas, suaves, lentas, alegres, é resultado de estados de espírito distintos, em momentos diversos da vida do compositor; que, em outras palavras, a sua obra refletia a sua história? E mais ainda, já experimentou o prazer de ouvir um rock pesado do Pink Floyd, com arranjo para orquestra? Algo completamente diferente, mas possível...![]() A apresentação do nosso livro Ritmos da História compara a História com uma composição musical, afirmando que, assim como a música, a História, em alguns momentos, é mais rápida e mais forte, outras mais lenta e suave. Os autores citam ritmos variados, arranjos diversos, melodias distintas e afirmam que a harmonia da História está na sua multiplicidade e ressaltam que ela é expressão de uma composição coletiva. Nós, alunos das sextas séries, tivemos uma aula com o Flávio, professor de música, para entender melhor alguns conceitos. Junto com a Soraya, nossa professora de História, fizemos várias reflexões e relacionamos as características de uma composição musical com o processo histórico. Ficamos empolgados com a relação entre História e Música e nos interessamos em saber mais sobre os autores do nosso livro. Elaboramos, então, algumas perguntas que organizamos em forma de entrevista, para apresentarmos nossas descobertas para vocês. Esperamos que gostem... Alunos das sextas séries Alunos - Qual foi a inspiração de vocês para escreverem o livro? Flavio - A inspiração para escrevermos o livro veio das nossas experiências em sala de aula como alunos e professores. Às vezes, as pessoas esquecem que antes de termos nos tornado professores fomos alunos: 11 anos na escola, 4 anos na faculdade, 5 a 10 anos na pós-graduação... No mínimo, 20 anos... Achamos que o ensino de história deve ser estimulante. Deve surpreender. Deve tentar atrair nossa atenção e permitir inúmeras associações. A história de pessoas que viveram há muitos anos, décadas ou séculos atrás deve ser atraente, como a nossa vida cotidiana. A nossa vida é cheia de paixões: pelos nossos filhos e filhas, pelos nossos pais, pelos nossos amores, pelos nossos amigos, pelos nossos times de futebol, pelas nossas férias, pelos nossos passeios, pelas nossas festas, pelos nossos trabalhos, pelas nossas cidades e países, pelas nossas músicas. Tudo isso faz parte de nossas vidas. E também fizeram parte das vidas das pessoas de tempos atrás. Assim, para resumir, nossa inspiração é a vida. A vida que temos, com nossas alegrias e dificuldades e a vida que sonhamos, porque temos o direito de sonhar uma vida boa para cada um de nós e o dever de sonhar uma vida boa para todos nós. “(...) temos o direito de sonhar uma vida boa para cada um de nós e o dever de sonhar uma vida boa para todos nós.” Alunos - Quanto tempo vocês levaram para fazer o nosso livro? Flavio - Tecnicamente, o livro foi escrito em dois anos e levou mais um ano para ser produzido pela editora. Isso se contarmos do primeiro capítulo até a edição final já impressa. Mas, na verdade, um livro não pode ser pensado apenas como algo técnico. A nossa coleção é o resultado dessas nossas experiências acumuladas e do momento em que escrevemos. Nós mudamos muito nesses anos todos. E continuamos a mudar. Temos opiniões diferentes daquelas que tínhamos há 10 ou 15 anos. E espero continuar mudando e escrevendo essas mudanças... Alunos – Como vocês tiveram a idéia de comparar História com a Música? Flavio - Nós adoramos música. Imagino que vocês também tenham suas canções, seus ritmos e seus artistas preferidos. Ao longo da vida, algumas músicas vão marcando o compasso de nossas emoções e lembranças. Quando arriscamos tocar algum instrumento ou dançar sabemos o efeito que a música provoca em nós. Há músicas que queremos tocar e dançar sozinhos. Mas há outras que queremos ouvir ao lado das pessoas mais queridas. Há outras que emocionam quando cantadas por milhares de pessoas que nem se conhecem. A história pode ser pensada assim. Fazemos história todos os dias. Participamos dela. E podemos mudá-la também. Para isso, precisamos agir. Precisamos reunir instrumentos e pessoas para criar nossa “banda” e tocar nossos sonhos e desejos. Precisamos refinar nosso repertório, aprender a escutar a música da história. Sem perder de vista que os interesses podem ser conflitantes. Alunos - Para vocês qual o significado da História? Flavio - Não saberia dar um significado à História. Acho que o mais próximo que conseguiria chegar é pensar a História exatamente como uma música. Qual o significado de uma canção? Depende de quem a escuta... Depende das circunstâncias... Depende da nossa atenção em querer entendê-la... A história tem diversos significados. E isso a torna fascinante. A Grécia nunca é a mesma. Os estudos sobre a Grécia, como qualquer outro tema histórico, vão sempre variar de acordo com as nossas mudanças. Isso não significa necessariamente evolução. Nem sempre mudamos para melhor. Não significa que quanto mais conhecemos mais sabemos. Não acredito num conhecimento meramente quantitativo. Conhecer é selecionar, é escolher, é refinar nossa capacidade de reflexão. Alunos - O que despertou em vocês o interesse de estudar História? Flavio - Cada um de nós tem uma trajetória muito particular. Aqui vou falar de mim, mas de certo modo, os quatro autores viveram essa mesma circunstância histórica. Eu era um jovem que adorava política quando tinha 15 anos. Para entender a sociedade brasileira da época (1978) eu precisava estudar história. Quanto mais eu estudava, mais argumentos eu tinha para questionar a ditadura militar (1964-1985), para questionar as injustiças que eu via na escola, na minha família, ao meu redor. A história foi o alimento da minha rebeldia adolescente. Entrei no curso de direito em 1981. Achava que seria advogado. Dois anos depois, percebi que seria mais feliz no curso de história. Fiz uma opção difícil, questionada por muita gente. Troquei o curso de direito pelo de história. Sinceramente: foi a melhor decisão da minha vida. “Troquei o curso de direito pelo de história. Sinceramente: foi a melhor decisão da minha vida.” Alunos - Em quais universidades vocês se graduaram em História? Flavio - Regina estudou na USP. Eu, Renan e Miriam estudamos na PUC/SP. Alunos - O que vocês acharam de fazer o livro? Flavio - Fazer um livro é ter o privilégio de registrar muitos dos nossos sonhos. É sempre um desafio. Temos que estudar muito. Temos que reconhecer que há assuntos que precisamos estudar mais. Que precisamos apresentar de maneira mais interessante e criativa. Escrever um livro é se comunicar à distância. É muito trabalhoso, porque não basta escrever. Temos que escolher as imagens, fazer as atividades, escolher os mapas (e revisá-los, porque há uma equipe que prepara os mapas de acordo com as nossas indicações), acompanhar o projeto gráfico (como vai ser a página, tamanho de letra, cores, etc.), escolher a capa. Depois disso, visitamos escolas e fazemos palestras para discutir o livro. Recebemos críticas dos outros professores e de alunos, recebemos sugestões, participamos de encontros sobre o ensino. Tudo isso faz parte da elaboração do livro. Mas eu quero contar uma coisa. Há um conto de Andersen em que se narra a existência de um livro caríssimo, cujo preço valia a metade do reino. Era um livro vivo. Os pássaros cantavam e os homens saíam das páginas e falavam. Era um livro delicado, até um pouco confuso, devido à movimentação dos animais e das diversas pessoas. Mas o seu valor essencial não residia nas páginas que saltavam aos olhos das crianças. O que lhes prendia a atenção não era a contemplação, mas a ação penetrante que lhes atiçava a curiosidade e a participação. Nosso sonho, como autores, é escrever um livro como esse. Sabemos que é impossível. Mas não importa. Esse sonho nós queremos sonhar. Talvez, em alguns capítulos, em algumas partes do nosso livro, a gente acabe conseguindo se aproximar disso. Se não der para conseguir sempre, sabemos que estamos tentando. Alunos - Sobre qual período da História cada um de vocês mais gosta de estudar? Flavio - Eu gosto mais de Idade Média. Regina de História da África. Renan de Grécia e Roma. Miriam de História do Brasil no século XIX. Alunos – Algum de vocês participou dos acontecimentos registrados nas fontes históricas das páginas 12 e 13? Quem foi e como foi? Flavio - Todos nós participamos desses acontecimentos. Estivemos nos comícios e passeatas pelas Diretas Já de 1984. Cantamos o Hino Nacional junto a milhares de pessoas. Uma emoção fortíssima. Saímos às ruas de preto pedindo o impeachment de Fernando Collor de Mello em 1992. E também nos emocionamos com a vitória da seleção brasileira em 2002 sob o comando do Felipão. Aqui em São Paulo, há uma praça muito famosa: a Praça da Sé. Não é a primeira praça da cidade. Não foi ali que a história de São Paulo começou. Mas essa praça tem muita história. Para lá se dirigiram os operários durante a greve de 1917, no imenso cortejo fúnebre de um simples sapateiro, que criou um oceano de gente do Brás até o Centro, ocupando a Rangel Pestana e subindo a Ladeira do Carmo. Na Sé reuniram-se cerca de 80 mil pessoas em 8 de maio de 1945 para comemorar a vitória dos Aliados sobre o nazi-fascismo e para se manifestar contra a ditadura de Getúlio Vargas. Na Sé, no interior da catedral, reuniram-se, em 31 de outubro de 1975, pouco mais de 5 mil pessoas, no culto ecumênico em memória do jornalista Vladimir Herzog, torturado e assassinado nos porões da ditadura militar. Na Sé, mais de 300 mil pessoas manifestaram-se pelo estabelecimento de um regime democrático em 25 de janeiro de 1984, exigindo eleições diretas para a Presidência da República. Nesse dia, eu estava lá. Na Sé, ainda vamos reunir muitas vozes, bandeiras e sonhos. Porque na verdade, ela não é o nosso ponto de partida. É o nosso ponto de chegada. Alunos - Vocês já escreveram sobre outros assuntos que não fosse História? Flavio - Essa é uma pergunta que eu também vou responder apenas a partir da minha trajetória. Eu comecei escrevendo poesias e letras de canções quando tinha 12 anos. Nunca publiquei nada disso. Depois escrevi muito sobre História. Tenho diversos livros e artigos publicados desde 1989. Às vezes, escrevo sobre futebol (que é uma das minhas grandes paixões) e esportes nos jornais de São Paulo. Alguma coisa sobre arte e cinema também já escrevi.
Regina Claro, uma das autoras da Coleção
Ritmos da História.
Fotos com o professor de Música
e a professora de História. |